Raio-X do choque · 26/10/2026
O dia do circuit breaker: o mercado devolveu a aposta feita entre os turnos
Preços de 26/10/2026 às 12h59, com o pregão ainda aberto, contra o fechamento de sexta, 23/10. Balanços, preços passados e carteiras dos fundos como estavam públicos até 23/10: nada do que saiu depois entra na conta.
Uma queda larga, ordenada pelo beta e pela aposta entre os turnos
- O mercado devolveu a aposta. Entre 02/10 e 23/10, a empresa mediana subiu +14,2%. As que mais subiram nesse intervalo foram as que mais caíram hoje (−39,9% na mediana do quinto que mais subiu, contra −6,7% no quinto que menos subiu). Isso vale mesmo depois de descontar o beta.
- O beta previu o tamanho do susto. Quem costuma oscilar mais que o Ibovespa caiu mais: correlação de −0,86. As maiores surpresas são as que caíram muito além do que o beta indicava.
- O balanço quase não separou ninguém. A dívida sobre o EBITDA teve correlação de só −0,18 com a queda; pesou nas pontas, não no meio.
- Pequenas e “de fundo brasileiro” caíram mais. O quinto das menores empresas caiu −33,8%; o das maiores, −11,8%. Onde os fundos brasileiros têm mais do valor de mercado, a queda foi −25,8%; onde têm menos, −10,3%.
- Parece o Joesley Day, maior. As mesmas 81 empresas caíram −9,4% (mediana) em 18/05/2017 e −19,1% hoje, e quem caiu mais lá tendeu a cair mais aqui.
Como as quedas se espalharam
Cada coluna conta as empresas que caíram dentro de uma faixa de 5 pontos percentuais.
9 medidas, uma régua: quanto cada uma ordena as empresas do mesmo jeito que a queda do dia
Correlação de Spearman entre cada medida (calculada só com dados até 23/10) e a variação de hoje. Vai de −1 a +1. Negativa: quanto maior a medida, maior a queda. Positiva: quanto maior a medida, menor a queda. Perto de zero: a medida não ajudou a ordenar.
Fato: as quatro medidas de preço (beta, volatilidade e as duas altas antes da eleição) ordenaram as quedas com correlação de 0,71 a 0,86 em módulo; as três de balanço e carteira, de só 0,18 a 0,30. O tamanho ficou no meio (+0,51): as maiores caíram menos. Leitura nossa: no dia do choque, o mercado vendeu primeiro o que tinha subido com a aposta e o que costuma oscilar mais, e só depois, se tanto, olhou o balanço.
Quem mais subiu entre 02/10 e 23/10 foi quem mais caiu hoje
Cada ponto é uma empresa. A curva tracejada marca a queda que devolve toda a alta entre os turnos: quem está abaixo dela já vale menos do que valia antes do 1º turno.
Queda mediana por quinto da alta entre os turnos
E o beta não explica tudo
Beta e alta entre os turnos andam juntos (correlação de +0,66): as ações mais sensíveis ao mercado foram as que mais subiram. Para separar uma coisa da outra, tiramos o efeito do beta das duas e medimos de novo. A correlação da alta entre os turnos com a queda continua em −0,61.
Leitura nossa, não fato: parte da queda de hoje é a devolução de uma aposta eleitoral específica, não só o tamanho normal de um dia ruim para ações mais arriscadas.
O que o beta previa, e quem caiu muito além disso
O beta mede quanto a ação costuma se mover quando o Ibovespa se move 1%, nos 12 meses até 23/10. A linha tracejada é a queda “esperada” pelo beta: beta × variação do Ibovespa no dia. Distância até a linha = surpresa.
Caíram muito além do beta
| Empresa | Beta | Esperado | Dia | Surpresa |
|---|---|---|---|---|
| TASA4 Taurus | 0,59 | −8,5% | −52,2% | −43,7% |
| ECOR3 EcoRodovias | 2,10 | −30,2% | −57,0% | −26,8% |
| RAPT4 Randoncorp | 1,46 | −20,9% | −45,8% | −24,9% |
| SIMH3 Simpar | 2,38 | −34,1% | −58,7% | −24,6% |
| VAMO3 Vamos | 2,26 | −32,5% | −54,6% | −22,1% |
| MGLU3 Magazine Luiza | 2,30 | −33,1% | −54,1% | −21,0% |
| JSLG3 JSL | 2,11 | −30,2% | −50,7% | −20,5% |
| VTRU3 Vitru | 1,08 | −15,6% | −36,0% | −20,4% |
Caíram menos (ou subiram) além do beta
| Empresa | Beta | Esperado | Dia | Surpresa |
|---|---|---|---|---|
| EMBJ3 Embraer | 0,55 | −8,0% | +7,9% | +15,8% |
| WEGE3 WEG | 0,65 | −9,3% | +6,2% | +15,6% |
| VALE3 Vale | 0,72 | −10,3% | +5,1% | +15,3% |
| BRAP4 Bradespar | 0,84 | −12,1% | +3,2% | +15,3% |
| GGBR4 Gerdau | 0,73 | −10,5% | +1,9% | +12,5% |
| SUZB3 Suzano | 0,27 | −3,8% | +8,2% | +12,1% |
| KLBN11 Klabin | 0,47 | −6,7% | +4,1% | +10,9% |
| SANB11 Santander Brasil | 0,91 | −13,1% | −3,3% | +9,8% |
Queda mediana por setor
Setores com 3 ou mais empresas na amostra. Setor como a própria empresa informa à CVM no Formulário Cadastral.
O que o balanço e a carteira dos fundos diziam antes
Dívida líquida / EBITDA contra a queda do dia
Empresas não financeiras. Dívida de empréstimos, financiamentos e debêntures em 30/06/2026, menos caixa e aplicações; EBITDA de 2025. Empresas acima de 8x aparecem na borda direita.
Por dívida líquida / EBITDA
Pela fatia da dívida que vence em 12 meses
Pelo valor de mercado na véspera
Pela fatia do valor de mercado nos fundos brasileiros
Quanto as carteiras dos fundos de investimento brasileiros (informe CDA da CVM) somavam da ação, sobre o valor de mercado da véspera.
Por controle acionário
As 8 estatais caíram −13,4% na mediana, contra −23,3% das privadas. A amostra estatal é pequena e espalhada: vai de Banco do Brasil (−27,2%) a Caixa Seguridade (−3,3%).
O mesmo padrão de 18/05/2017, com 2,0 vezes o tamanho
Variação de cada empresa no Joesley Day (18/05/2017, o último circuit breaker da B3 antes de 2020) e hoje. Só entram as 81 empresas negociadas nos dois dias.
Fato: a correlação entre as duas quedas é de +0,41: quem caiu mais em 2017 tendeu a cair mais hoje, mas a ordem não se repete inteira.
O Ibovespa depois do primeiro dia de queda de 7% ou mais de cada episódio desde 2000
| Dia | Queda no dia | 1 mês depois | 3 meses | 6 meses | 12 meses |
|---|---|---|---|---|---|
| 13/09/2001 | −7,3% | +10% | +26% | +29% | −7% |
| 15/09/2008 | −7,6% | −14% | −19% | −16% | +26% |
| 08/08/2011 | −8,1% | +16% | +21% | +35% | +19% |
| 18/05/2017 | −8,8% | +1% | +11% | +19% | +30% |
| 26/02/2020 | −7,0% | −26% | −18% | −5% | +9% |
Variação do Ibovespa do fechamento do dia da queda até 21, 63, 126 e 252 pregões depois. São só 5 episódios, com causas diferentes (2001, 2008, 2011, 2017 e 2020). Isso não é previsão: em 12 meses, o que veio depois foi de −7% a +30%.
As maiores quedas e as altas
12 maiores quedas
| Empresa | Setor | DL/EBITDA | Dia |
|---|---|---|---|
| SIMH3 Simpar | Serviços Transporte e Logística | 3,3x | −58,7% |
| ECOR3 EcoRodovias | Serviços Transporte e Logística | 4,2x | −57,0% |
| MOVI3 Movida | Serviços Transporte e Logística | 3,4x | −55,8% |
| VAMO3 Vamos | Serviços Transporte e Logística | 3,1x | −54,6% |
| MGLU3 Magazine Luiza | Comércio (Atacado e Varejo) | 1,0x | −54,1% |
| TASA4 Taurus | Máquinas, Equipamentos, Veículos e Peças | 4,0x | −52,2% |
| JSLG3 JSL | Serviços Transporte e Logística | 2,8x | −50,7% |
| RAPT4 Randoncorp | Máquinas, Equipamentos, Veículos e Peças | 3,8x | −45,8% |
| PGMN3 Pague Menos | Comércio (Atacado e Varejo) | 1,1x | −44,0% |
| CSAN3 Cosan | Agricultura (Açúcar, Álcool e Cana) | 11,1x | −43,5% |
| SBFG3 Grupo SBF | Comércio (Atacado e Varejo) | 1,2x | −42,9% |
| ANIM3 Ânima | Educação | 2,0x | −41,7% |
As que subiram mais
| Empresa | Setor | DL/EBITDA | Dia |
|---|---|---|---|
| SUZB3 Suzano | Papel e Celulose | 3,0x | +8,2% |
| EMBJ3 Embraer | Máquinas, Equipamentos, Veículos e Peças | 0,3x | +7,9% |
| WEGE3 WEG | Máquinas, Equipamentos, Veículos e Peças | -0,4x | +6,2% |
| VALE3 Vale | Extração Mineral | 1,3x | +5,1% |
| KLBN11 Klabin | Papel e Celulose | 2,6x | +4,1% |
| BRAP4 Bradespar | Extração Mineral | — | +3,2% |
Das altas, a maioria vende em dólar. Isso descreve o dia; não diz o que vem depois.
Elétricas: caíram menos que a bolsa (−13,2% na mediana)
Empresas com mais de R$ 5 milhões negociados na sexta, da maior queda para a menor.
| Empresa | Controle | Dívida líquida 30/06/2026 |
EBITDA 2025 | DL/EBITDA | Dia |
|---|---|---|---|---|---|
| AURE3 Auren | Privado | R$ 19,9 bi | R$ 3,9 bi | 5,1x | −32,5% |
| ENGI11 Energisa | Privado | R$ 33,2 bi | R$ 8,9 bi | 3,7x | −28,0% |
| EQTL3 Equatorial | Privado | R$ 54,1 bi | R$ 10,9 bi | 5,0x | −26,6% |
| LIGT3 Light (em recuperação judicial) | Privado | R$ 7,3 bi | R$ 2,2 bi | 3,3x | −24,5% |
| ALUP11 Alupar | Privado | R$ 9,5 bi | R$ 3,3 bi | 2,9x | −19,1% |
| ENEV3 Eneva | Privado | R$ 19,8 bi | R$ 6,5 bi | 3,0x | −16,0% |
| AXIA3 Axia (ex-Eletrobras) | Privado | R$ 44,7 bi | R$ 8,5 bi | 5,3x | −14,0% |
| CPFE3 CPFL Energia | Privado | R$ 27,6 bi | R$ 13,1 bi | 2,1x | −12,4% |
| CPLE3 Copel | Privado | R$ 20,0 bi | R$ 6,5 bi | 3,1x | −12,3% |
| CMIG4 Cemig | Estatal | R$ 19,3 bi | R$ 8,3 bi | 2,3x | −11,2% |
| EGIE3 Engie Brasil | Privado | R$ 24,8 bi | R$ 7,7 bi | 3,2x | −10,3% |
| TAEE11 Taesa | Privado | R$ 10,4 bi | R$ 2,8 bi | 3,7x | −9,9% |
| ISAE4 ISA Energia | Privado | R$ 15,9 bi | R$ 4,2 bi | 3,8x | −9,1% |
Fato: as três maiores quedas (Auren, Energisa e Equatorial) têm dívida líquida entre 3,7x e 5,1x o EBITDA; as três menores (Engie Brasil, Taesa e ISA Energia) caíram entre −10,3% e −9,1%. A mais endividada da lista, Axia (ex-Eletrobras) (5,3x), caiu −14,0%. Leitura nossa: no setor, a dívida não bastou para ordenar a queda.
Bancos (−23,8% na mediana): o balanço não explica a ordem
Capital e lucro do conglomerado prudencial no IF.data do Banco Central, data-base 31/03/2026 (público desde 29/07/2026). O IF.data de junho só fica público em 28/10, depois do choque, e por isso não entra.
| Banco | Controle | Ativo total | Basileia | ROE anualizado 1º tri | Dia |
|---|---|---|---|---|---|
| BPAC11 BTG Pactual | Privado | R$ 785,8 bi | 15,9% | 23,4% | −30,7% |
| BBAS3 Banco do Brasil | Estatal | R$ 2.605,7 bi | 14,2% | 6,9% | −27,2% |
| PINE4 Pine | Privado | R$ 35,8 bi | 13,2% | 34,3% | −26,7% |
| BBDC4 Bradesco | Privado | R$ 1.990,6 bi | 14,9% | 11,4% | −23,8% |
| BRSR6 Banrisul | Estatal | R$ 163,8 bi | 17,5% | 7,8% | −19,2% |
| ABCB4 ABC Brasil | Estrangeiro | R$ 69,3 bi | 15,8% | 13,0% | −16,7% |
| ITUB4 Itaú Unibanco | Privado | R$ 2.834,4 bi | 14,8% | 20,9% | −14,9% |
| BMGB4 BMG | Privado | R$ 49,5 bi | 12,1% | 13,9% | −13,5% |
| SANB11 Santander Brasil | Estrangeiro | R$ 1.316,5 bi | 15,2% | 15,3% | −3,3% |
Fato: o índice de Basileia de todos ficava entre 12,1% e 17,5%. BTG Pactual caiu −30,7% com Basileia de 15,9%; Santander Brasil caiu −3,3% com 15,2%. Entre os 9 bancos, a correlação da queda com a Basileia foi de −0,13 e com o ROE, +0,02: praticamente nenhuma.
O que esta análise não diz
- É um dia. A variação de um dia mostra o susto, não o valor da empresa. Correlação não é causa.
- Nada aqui é recomendação de investimento. Cair muito não quer dizer que ficou barato, nem cair pouco quer dizer que é seguro.
- “Leitura nossa” é interpretação, separada do fato no texto. A causa de cada queda não está nos dados.
- A base não separa a dívida em dólar da dívida em CDI. A alta do câmbio e a alta do juro pesam de jeitos diferentes, e a conta da página trata as duas igual.
- Dívida líquida = empréstimos, financiamentos e debêntures (contas 2.01.04 e 2.02.01, sem os arrendamentos 2.01.04.03 e 2.02.01.03) menos caixa e aplicações (1.01.01 e 1.01.02), do ITR de 30/06/2026. EBITDA de 2025 (DFP), não dos últimos 12 meses.
- Beta e volatilidade usam os retornos diários de 12 meses até 23/10/2026, preços ajustados por proventos.
- Valor de mercado do Yahoo Finance, trazido para a véspera pela variação do dia. A fatia dos fundos usa o informe CDA mais novo da CVM e pode estar defasada alguns meses.
- Amostra: ações e units com mais de R$ 20 milhões negociados em 23/10 e com cadastro na CVM; um papel por empresa (o mais negociado). Papel cujo preço no Yahoo não mudou no dia fica fora (cotação parada). Bancos, seguradoras e financeiras ficam fora da conta de dívida.
- Preço do dia sem ajuste por proventos: se uma empresa teve data-com entre 23 e 26/10, a queda dela aparece um pouco maior do que foi.
- Outros choques: poucos episódios em 25 anos não fazem estatística; a tabela é contexto. A série do Ibovespa no Yahoo tem falhas nos primeiros anos (falta o pregão de 11/09/2001, por exemplo).
De onde vem cada número
- Preços, volumes, Ibovespa e valor de mercado: Yahoo Finance, de 2000 até preços de 26/10/2026 às 12h59, com o pregão ainda aberto.
- Dívida, caixa e aplicações: CVM, ITR consolidado de 30/06/2026 (Dados Abertos), entregues até 23/10/2026.
- EBITDA: CVM, DFP consolidada de 2025 (Dados Abertos), pela ficha da empresa no TickerLab.
- Carteiras dos fundos: CVM, informe de composição e diversificação das aplicações (CDA), pela ficha da empresa no TickerLab de 22/10/2026.
- Setor, controle acionário e códigos de negociação: CVM, Formulário Cadastral (FCA), versão mais nova recebida até 23/10/2026.
- Bancos: Banco Central, IF.data, conglomerado prudencial, data-base 31/03/2026, público em 29/07/2026.
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